Eramos um

Poesia, Escritos, Contos e Mentiras de um cara que pensa que é três!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Dois em um

Dois em um
Mariz Conzê


Tenho cara de bobo,
Tenho até mesmo jeito de bobo
Minhas ações são tolas e infantis,
Mas,
Também sou um Calunga de Oxum
Um Calunga homem macho
Com cabeça de Santa mulher fêmea
Que roda e briga
Que encara e vence
Que fala sério e encanta

Eu entro onde nem homem nem
Mulher entra
Eu faço o que nem o Arco-Íris faz
Eu sou o Calunga
Que no Padê, chama
Dá comida e oferendas
Ao pai Elegbá

Mas,
Também sou o cara engraçado
O pai feliz e amado
O marido fiel
O amigo de meus amigos

sábado, 6 de agosto de 2011

ONTEM

ONTEM
Mariz Conzê


Sentado na pedra
do arpoador,
num fim de tarde qualquer,
eu quase consigo me ver
menino,
de sunga surrada,
vermelho grená,
com um canivetinho
amarrado no cordão
que me apertava a cintura;
um limão pequeno,
guardado
do lado da coxa
e mergulhando,
procurando mariscos
e ostras;
para,
vivos,
nadando no sumo do limão,
matar minha fome,
de um tempo muito lá atrás.
Eu menino, não tinha:
os filhos,
a neta,
os afilhados,
o doce sorriso dela,
os livros não lidos,
os não escritos,
os haicais,
as tintas,
os papéis,
a vista da Lagoa,
não tinha uns,
não tinha outros,
não tinha.
Mas eu era feliz,
era muito feliz,
mas não era
eu!
Eu, sou o que me cerca,
o que me completa,
o que me dá e toma,
o que existe sem pedir,
o que pede sem existir,
e a isso,
chamamos vida.
E quando essa vida
nos cerca totalmente,
chamamos amizade,
mas se essa vida
nos vive,
chamamos amor.

domingo, 24 de julho de 2011

Mostrando a Língua

Variz da Meiga


Quem haverá de saber mais,
Sobre uma língua?

O Léxico que a escraviza,
Entre largas paredes,
De papel.

Ou o Escritor que, como um Gigolô,
A faz trabalhar, corrido e marcado,
Sobre papel.

Ou será o Revisor,
Que lhe necropsia, mexendo suas entranhas,
Com papel.

Talvez o Professor,
Que dela e nela faz sua vida,
Em papel.

Ou o Poeta,
Que exalta e ama pessoas e mitos,
No papel.

Definitivamente é o Homem Comum!
Que a inventa, maltrata, constrói e destrói,
Para uso dos todos que dela vivem,
Que papel!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Junina

Junina
Variz da Meiga

Um quentão é 5 e dois é 3!
Um é cinco e dois é três? José se espantou. Como pode dois ser mais barato
que um? Sorriu, coisas do Rio, coisa de Carioca, esse povo engraçado que
recebe os nordestinos como se tivessem nascido aqui.
Dois é três! Ora vejam só!
José se encostou na barraquinha, pediu dois quentões e, respirando o ar de
pólvora e madeira queimada deu uma olhada pela quermesse.
Ô saudade lá da Paraíba!, da sua terra, da sua gente, do São João, das
festas que faziam sua cidade entrar no mapa. E tome quadrilha.
A sanfona tocava, os rojões subiam e o quentão também! Olhe ali! A Dona do
403! E toda produzida! Que engraçado ver o pessoal do seu prédio numa
situação fora dele. E a música rolava. Essa eu conheço! E veio pra cabeça a
tarde de conversa com o Síndico do prédio - ele se apresentando: José
Severino do Grupo.

- Do Grupo? Perguntou o Sindico.
- Sim sinhôr, é José purcausdiquê nasci cumbigo enrolado no pescoço
e fui consagrado pra São José, Severino purcausqui todo mundo lá pras bandas
de lá é, e do Grupo prucaus di minha mãe que era professora lá no Grupo
Escolar e pra diferênçá fiquei do Grupo. Sabiam não o nome do meu Pai,
fiquei do Grupo. Eu sei lê e escrevê, tenho as referênça que o sinhôr
precisá.

Vinte anos! Como o tempo passou rápido, parecia outro dia, parecia que a sua
infância ainda estava ali do lado.
O cheiro do gengibre subia da panela de quentão, José sorriu e pediu mais
dois. Três real, que gozado! As fagulhas da madeira queimada também subiam e
com um estalido se perdiam de encontro ao céu negro. As imagens das suas
festas estavam vivas, o cheiro, a música, o calor, era como se ele estivesse
na sua cidade. Que saudade, quanto tempo. Como andaria sua mãe? E os irmãos,
estariam ali pelo Rio? A falta de notícias e a total ausência de informação
tinham fechado seu coração.
Vinte anos! A menina que ele tinha desgraçado já devia ser avó! Claro, o
filho de vinte anos atrás tinha idade para ter um filho - filho do filho que
nunca viu. Avô. Qual o quê!
Vinte anos fugindo da responsabilidade com a menina. Vinte anos de Rio de
Janeiro, uma nova vida, que, se não preenchia a saudade dos seus, tinha lá
suas compensações.
E tome quadrilha!
E tome quentão!
O casamento começou. Risos, foguetes, o Padre casando e a noiva de tênis
fugindo, a música alta e mais um morador do prédio lá longe.
Um amigo passou do lado e ele ofereceu um quentão.
Um cigarrinho, as fagulhas, a folha do galho de bambu entrando no olho, uma
saudade enorme tentando sair.
Sacudiu a cabeça, tinha que tomar uma decisão, tinha que voltar, tinha que
ver sua mãe, tinha...
Ô saudade.
Na barraca do lado um sujeito acendeu umas brasas e colocou queijo de coalho
pra queimar. Noutra barraca tinha pamonha, noutra além carne de sol.
É... parecia que a Paraíba era ali.
O amigo falava e ele não ouvia, o quentão esfriava e a cabeça voava pra
cidadezinha, pra sua casa, pra sua gente.
Um toque no ombro deu um susto. Mais um morador do prédio brincava com ele.
É, essa cidade já era a sua cidade, pra quê voltar, pra quê?
A moça passou em frente da barraca. Já tinham trocado olhares antes. Ele
chamava a moça de menina do pão, todos os dias ela ia para a padaria e se
olhavam. Um quê de desejo se acendeu.

Quentão? Vem. Um é 5 e 2 é 3!

Ela aceitou sorrindo.

O balão vai subindo, vai caindo a garoa, o céu é tão lindo e a noite é tão
boa.

Será que dessa vez eu saio desse casulo de aranha? Vou conseguir uma moça
direita, uma moça pra casar direito, pra ter filhos direito, pra fazer a
minha família, é isso?, é agora que eu saio dessa toca?

Começaram a conversar, a beber, as barreiras foram caindo e a conversa foi
ficando em voz baixa. A música lá no fundo e o quentão lá na frente.

Ó, agora a quadrilha é pra todos, vamos dançar? Falou a morena.

A cabeça girava, o corpo girava e a morena girava. A fumaça subia, os
cheiros entravam, o calor da pele dela aquecia seu coração. Quanta
felicidade, era quase como se fosse lá na cidade. A música acabou e a morena
puxou o braço dando risadas - vamos tomar mais dois quentão? É só três,
falou sorrindo.

Zé Severino? A voz perguntou.
José Severino, seu criado, respondeu.
Do Grupo?
José Severino do Grupo sim sinhôr, porque?

A resposta veio como um novo cinto, dois dedos abaixo do cinto de couro que
segurava a calça de Pervinc Aurora. O novo cinto abriu a calça como um
sorriso e por ele seus miúdos começaram a sair pra fora.
A morena gritou e saiu correndo; uma clareira se abriu no meio da dança.

Suas mãos tentavam agarrar seus intestinos como se fosse um filho nascendo.
A cabeça girou, as pernas bambearam e ele caiu sentado.
Olhou para cima. O velho, pequeno, pele curtida, roupa mal assentada, de
cabeça branca e com uma peixeira na mão, falava. Falava e gritava. O quê ele
falava? Filha? Vinte anos?
Um traque explodiu e o cheiro de cordite encheu o ar.
Ele sacudiu a cabeça como se estivesse com o cabelo molhado tentando prestar
atenção no que estava acontecendo. Um rojão papocou. O velho seguia falando,
seus miúdos escorriam pelo meio das mãos, o sangue descia e corria separado
do quentão que bebera. As pernas abertas com aquilo cheio de voltas e nós
espalhado no meio, parecia coisa de filme americano. O sangue ia para um
lado e, enquanto a escuridão tomava conta da sua vista, o quentão escorria
para outro, parecendo querer voltar pra dentro da panela. Olhou para os
sapatos e os cadarços estavam soltos. Ué? Não tinha amarrado?
O velho seguia gritando; ao fundo as fagulhas, os cheiros, a música.

São João, São João, acende a fogueira do meu coração.

Ele estava voltando para casa.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Crime

O Crime
Variz da Meiga

Vou matá-lo.
Sei como.
Já planejei tudo.
Todas as ações, passo a passo; até mesmo o que vou dizer e como vou me
comportar depois.
Vou matá-lo.
Matar é a única coisa em meu pensamento.
Tá bom, parece piada, mas não é! É muito sério, é papo de morte! Tenho uma
vida pacata, sossegada, amigos até dizem que sou uma pessoa zen. Mas um
monstro mora dentro de mim!
Eu descobri.
E assustado com o bicho, me peguei cutucando o danado só pra tentar ver o
tamanho da sua força.
Ele quase acordou.
Eu me senti um gigante - cabelos na língua, farpas na palma da mão, sangue
gelado.
Brincadeira?
Não é!
Estou escrevendo isso como um aviso e ao mesmo tempo tentando superar meus
medos. Esse monstro vai matar! Eu vou matar!
Com hora e local determinados, com o plano obsessivamente passado e
repassado, cada movimento exaustivamente repetido, cada palavra de despiste
decorada e novamente falada e falada e falada, até soar como verdade. Não
essas verdades cheias de detalhes, que não sou bobo! Preparei até mesmo o
timing de um soluço, de uma tirada de óculos, vai ser verdadeiro! Tem que
ser!
Todos os ângulos foram estudados. Como já disse, exaustivamente estudados e
pensados e interpretados e questionados e finalmente aprovados!

No início a coisa toda parecia apenas um pesadelo, um sonho ruim. Aos poucos
os detalhes exatos demais para serem sonhos foram surgindo. O desejo, a
volúpia, a excitação do antes crescia a cada noite, aí passei a pensar nisso
durante o dia também, e a fazer anotações e medições e marcações de tempo,
de passos, de atos, de palavras, de desculpas, de álibis, de tudo enfim,
tudo, tudo, tudo.

Agora é esperar a hora.

Bem, isso visto assim de longe, nessa calma, parece uma coisa e é outra - é
muito difícil esperar. Esperar para matar. Mas sei que estou fazendo o
certo, o necessário, o que qualquer um faria em meu lugar! Certo!

Por isso vou matá-lo!
Matá-lo, sem pretensões a finalmente executar o crime perfeito, mas sabendo
que vou sair ileso, sem culpa, inocente, cordeirinho!
Estes escritos serão deletados, queimados, apagados, nada, nenhuma anotação,
arma, plano, nada, nada vai sobrar para servir de elemento de ligação entre
o crime e a minha pessoa.
Nada!
O tempo corre, meus dedos batucam nas teclas enquanto suo um pouco na testa.
Sinto o monstro acordando.
Sim, estou sentindo o bicho se movimentando, se mexendo, se levantando; a
hora está chegando! Já é tempo de me preparar, parar com essa baboseira
sentimental de "botar pra fora", de fazer como os assassinos de cinema que
contam tudo antes de matar.
Chega!
Esta é a hora!
Este é o tempo final!
Vou me levantar desta cadeira, apagar tudo, desligar este computador, limpar
as impressões digitais e começar meu plano.
Vou matá-lo!
Matá-lo de uma vez, para poder viver tranquilo, sossegado e feliz, sem esse
imbecil, piegas, sentimental, romântico e babaca lado poético!

domingo, 5 de junho de 2011

Bullying, Sanduíche de Goiabada com Grapette e a Total Falta de Conhecimento


JPVeiga

Lendo as notícias sobre o caso de Bullying no tradicionalíssimo colégio São Bento, me lembrei de uma dessas coisas que só acontecem comigo:
Recém-convidado a me retirar de uma escola, fui entrado em outra; mais uma vez escola católica, mais uma vez com padres, bedéis e rigidez total.
Eu gostava mesmo era de ler e por isso achava que sabia mais que os professores; meu mundo perfeito era ler, fazer judô, ler mais um pouco, ir à praia, ler e patinar no gelo, numa Ipanema que teimava em ficar besta e internacional... O judô tentava me ensinar o respeito - meu mestre Rudolf Hermanny, dizia que o segredo da vida era o respeito, pelos outros, pelos mais velhos, pelo conhecimento e pelo seu próprio corpo! Grande sujeito!
Pois foi que num primeiro dia de aula, depois de uma aula chatíssima de ciências, onde eu tinha certeza que sabia muito mais sobre o período triássico do que o professor, fui para o recreio com a boca aguando pelo sanduíche de goiabada e pela minha, ainda meio geladinha, Grapette! Sentei em um degrau de uma escada de cimento, que eu não sabia onde ia dar, e fiquei olhando todos aqueles alunos que eu não conhecia, toda aquela gente se falando e rindo e brincando, enquanto eu, ali, esperava que o tempo me apresentasse todos, que pareciam ser boas pessoas!
Aí...
Passou um carinha e patolou meu sanduíche e a minha Grapette - o cara foi tão rápido que levou tudo e correu rindo!
Sem pensar, corri atrás do ladrão e dando uma banda por trás, derrubei o danado; caí sobre ele e entrei em uma posição de estrangulamento (katagatame), em que se prende o pescoço e um dos braços do adversário, sufocando-o. Ele, rapidinho parou de dar pinta de resistência, então eu o soltei e fui logo pegar o que sobrou da minha Grapette. Meu pobre sanduíche, que me olhava desmontado, viu o rapaz se sentar chorando.
Ainda fiz um gesto como se fosse dar-lhe uma grapettada na cuca e saí fora. Dali direto para a secretaria, levado pelo Bedel, onde uma bronca de sacudir quarteirão me esperava. Sentado na antessala, ainda agarrado na garrafinha, olhei para outro aluno, que, com cara de bobo e assustado, me falou:
- Bicho! Você bateu no cara mais forte da escola, ele espanca todo mundo, ele toma as coisas dos outros, toma dinheiro e obriga a gente a fazer o dever dele!!! Já apanhei dele uma semana inteira! Como você fez isso?
Muito sério, respondi:
         - É que eu não sabia, se soubesse tinha apanhado...

domingo, 27 de março de 2011

O Contrato



O Contrato
Mariz Conzê




Os dedos nodosos rodavam a caneca de ágata – esmalte velho e gasto no fundo – uma cordinha sebenta amarrada na asa explicava que o dono era gente de viagem – de pouso aqui ora ali. 
O café soltava uma fumaça que se espalhava com o bafo do homem. A caneca ia até a boca e os olhos apertados viam através da janela – lá longe uma fumacinha mostrava que por ali morava gente, gente de muito porém, de muita história, gente arredia e com a desconfiança como vizinha. Era caso de se esperar. O homem disse que vinha, virá.
Lembrou da mulher. Lembrou de como explicou que esse era o último trabalho – lembrou de quantas vezes lhe dissera isso – sorriu. 
Danada, verve preocupada – carece não, sei me defendê.
Sorriu nervoso.
A casa abandonada só tinha o cheiro da fogueirinha que fizera pra fazer café. O teto de telhas vãs tinha até trepadeira nascendo. A tarde acabava, a fumacinha ao longe chegava perto – devia ser ele.
Ajeitou o repetição atrás de um toco de pau – colocou uma garrucha no alto de uma viga meio podre – deixou ao alcance da mão uma faca de corte e esperou – nunca se sabe – tem-se que estar preparado – pensou, ajeitando uma peixeira nas costas.
Então se encostou no canto da janela e esperou. A lembrança da mulher veio de novo, ela no quintal, os lençóis brancos se sacudindo, o sol forte, o sorriso maroto. Estava sonhando quando alguma coisa fez ele prestar atenção. A fumaça virara um cavalo – em cima dele um homem; roupas boas cheias de poeira, segurando mal nas rédeas, ele parecia ter guerreado com o cavalo durante todo o percurso. Era o danado, o pau mandado do cliente. Já estava acostumado, nunca aparecia o ômi da mandância. Quem paga e quem diz é sempre um cabra safado – toco de amarrar jerico. Tinha raiva desses tipos – pequeninos com jeito de quem tem sem ter, de quem é sem ser – mas, vamulá que o trabalho já foi meio pago.
Parou na soleira da porta e tirou o chapéu, o homem chegou e sem jeito encostou o cavalo perto duma árvore e se apeou. Desceu e foi falando e andando e maldizendo o sol e os espinhos e o cavalo e a estrada, entrou na casa e olhou ao redor – não tinha móveis, não tinha cadeira, olhou de novo como que não acreditando e rodou o corpo até parar nos olhos do matador. 
Entonces vossemecê é o ômi?
É, sô.
Eu vim a mando de uma pessoa que lhe mandou dinheiro e lhe fez uma oferta de trabalho.
Sei.
E o senhor recebendo o dinheiro como que selou o acordo e agora eu...
Moço, diga logo quem é e onde mora. Diga e vá-sembora que eu não perciso de mais nada nhô não! Chega de rapapés, diga logo – dê uma fota, uma indicação e mais nada – nóis nunca se viu – entende?


Certo, descurpa, é o nervoso que está assim me empurrano. Tome lá! Essa fota é antiga, ele já é um homem velho – tem uma mulher nova, filhos pequenos e tal e coisa, mas isso não interessa, ele tem que, digamos assim – desaparecer por mode as terras do meu patrão ficarem assim vazias que o ômi do banco assim quis e mais não digo pruquê não posso. 


Certo, agora é comigo – falou o cabra pegando a foto e como que se abanando – vá-sembora. Pregunte lá pro seu patrão se ele quer alguma prova do sumiço do cabra?
Carece não, a notícia por essas bandas corre muito rápido – vamos saber rapidim – assim que se souber, mandamos o restante.


Negativo, falou o homem se colocando na frente do outro que se movimentava pra sair dali. Negativo – eu quero encontrar com vossemecê logo dispois do fato – diga onde, que eu vou até lá – e recebo o que é meu e me ganho no mundo – é assim que a coisa funciona, que isso não é brinco de criança nem xixi de moça – é pau de dar em doido – se não quiser fale logo que eu dô logo por encerrado e pronto cabô e fim.


E o homem suando falou, e se explicou e concordou e assentiu e saiu e montou e foi embora deixando para trás a mesma fumacinha que trouxe.


Dentro da casa a 44 saiu de trás do toco, a garrucha foi pro cinto, a faca começou a picar um pedaço de fumo e a fotografia ficou no parapeito da janela enquanto o cigarro era aceso. 
E lá ficou quando ele saiu – a foto gritava, a casa reclamava, a arma esquentava e o sol ardia; enquanto o homem entrava pelo meio do mato feito bicho, correndo pra chegar no sítio de seu velho pai e matar e correr de volta pra encontrar o maldito leva e traz, receber o dinheiro, dar umas bordoadas nele, descobrir quem é o patrão, e matar esse e ir até o mandante, matar aquele cabra também e voltar correndo pra casa e pegar a mulher e sair fugido pros cafundós; que cabra matador que cumpre seus contratos ali na risca, acaba sempre tendo problemas. 

sexta-feira, 11 de março de 2011

Carta de Léo Cunha a Emir Sader

O Emir Sader, que eu sempre considerei um cara lúcido, me soltou essa bobagem:

"a elite tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum."

Que papo é esse, Emir? Em que emirado você está vivendo?
Quem defende os direitos autorais não é nenhuma elite, são milhares de escritores e ilustradores (no caso do livros, e milhares de compositores, no caso da música, etc).

Nosso TRABALHO é criar prosa e poesia e ilustrações e merecemos remuneração por este TRABALHO. Os direitos autorais são o nosso pagamento, o nosso salário. Não somos representantes de nenhuma elite nem nenhum grande conglomerado. Aliás, nosso grande inimigo, neste luta em torno dos direitos autorais, é uma pequena empresa chamada Google.

Peço licença para me usar como exemplo. Eu escrevo livros infanto-juvenis há 20 anos. Me preparei para isso há mais tempo que isso, lendo muuuuuuuito durante toda a minha vida, fazendo traduções, fazendo uma especialização em Literatura Infantil, fazendo um mestrado em ciência da informação, e agora em meio a um doutorado.

Como alguém pode ignorar que isso é o meu TRABALHO? Que eu mereço ser pago pelo meu estudo, meu esforço, minha criação?

Se você está certo em um ponto, é que os direitos autorais são, para a maioria de nós, um "dinheirinho". E muito suado. Cada livro que meu que é vendido no mercado (a preços que variam de 15 a 30 reais, geralmente), me rendem de direitos autorais algo entre 1 e 3 reais. Não mais que isso. Quando há uma compra governamental, os preços caem muito, então os autores recebem algo como 30 ou 40 centavos por livro. Centavos!

Se o livro não vende nada eu não ganho nada. Se vende bem (o que no Brasil é incomum) eu consigo receber uma remuneração razoável. Como você vê, meu trabalho é de alto risco, ao contrário do trabalho de quem disponibiliza o PDF dos meus livros num site cheio de banners.

Quer dizer então que estes sites cheios de banners (que são pagos, obviamente) estão do lado certo, moderno, avançado, o lado da inteligência coletiva e da democracia cultural?

E eu, que exijo apenas a remuneração pelo meu trabalho, estou do lado errado, do lado do atraso? Estou do lado dos cânones dogmáticos? Só penso "no meu dinheirinho dos direitos autorais"?

Ou será que o atraso é representado por aqueles que querem derrubar este grande avanço que foi a profissionalização do artista. Assim corremos o risco da volta dos velhos mecenas (aristocráticos, religiosos, ideológicos, etc) que permitem, abonam e subvencionam apenas o que lhes interessa pessoalmente.

Repare que eu não sou contra qualquer autor disponibilizar o que quiser na internet. Eu mesmo publico, frequentemente, poemas inéditos na minha página do Twitter. O que eu não posso admitir (e esta posição é unânime na AEI-LIJ - Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) é que alguém - especialmente alguém com a inteligência e preparo de um Emir Sader – venha nos negar a remuneração por nosso TRABALHO.

Atenciosamente,
Leo Cunha

domingo, 9 de janeiro de 2011

Verdade

Poucas coisas sei
Muito poucas
E das poucas coisas que sei
Poucas são verdades
E dentre essas poucas coisas
Em uma eu acredito

Assim, vou dividir com vocês
A única certeza
Que tenho:

Vivemos num aquário

Sim, somos todos
Peixinhos de aquário
Nada do que fazemos
É verdadeiramente
Verdade

O brilho do diamante

O gás da água mineral
O chapéu pontudo do cardeal

O carro que corre na rua
O homem que pisou na lua
O corte na carne crua

O pastel de carne da feira
O anel no dedo da freira
A estrela no meio da bandeira
A cruz que muitos fazem de carreira

Tudo isso e mais a luz que poucos enxergam

Nada é de fato um fato
Nada é de verdade
Nada é nada
Nada

Tudo é uma ilusão
Como decoração
De fundo do mar
Em um aquário barato

Nadamos em volta
De algas e bolhas
Comemos manás
Plantados e matados
E a nós enviados
Como se tivéssemos feito
Trabalhamos em empregos
Que não levam a nada
Escrevemos livros que se apagam
Fazemos filhos que nos são entregues
Por algo ou alguém
Que os fabrica e nos dá
Como quem entrega
Um peixinho num saco plástico

Somos, sem ser
Existimos sem saber
Sabemos sem crer
Acreditamos sem poder

Então,
Um dia,
O dono do aquário
Vai cansar de nós
Vai achar que o vidro está sujo
Ou vai ter que fazer uma longa viagem
Ou simplesmente vai esquecer de nós
E aí
Aí...

Aí, vamos nos debater no tapete sujo
Como peixes fora da água
Jogados, derrubados no chão
Pulando e abrindo a boca
A procura de um ar que não virá
Esperando que o dono
Enfim,
Tenha piedade de nós
Amém

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Amém



Mulher
Esta é a tua rima
E dentro,
Ela é a razão
E a falta dela

És uma atômica explosão
E o enorme silêncio
Posterior
 
És a febre
E o tremer
És o calor
E a falta dele

Mulher,
Em tua rima
És ter
E és o ser,
Por isso,

Ave rainha
Cheia de penas
Que eu esteja convosco
Até o fim de meus dias
Bendita sois vós
Entre as avós
E bendito é o fruto
Que é o vosso ventre
De luz

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

MInha Palma Sua Alma

Minha mão é um harém.
E nele,
És a escolhida,
A favorita do Sultão
A minha predileta

Mas só és assim
Porque eu te sonho
E neles,
Não és apenas a professorinha.
Nos meus sonhos de espanto
E de realidade
Sonhos suados de vida
E de sorte
És Beatriz e Carmen
Numa mistura louca
De literatura e música


Nos meus sonhos violetas
De persianas entreabertas
De azulejos pintados
De flores e de frutos
Sonhos inteiros de nada,
És a dona do mar
És a mais bonita dentre todas
As sereias feitas de terra

Minha mão é um harém,
Não apenas porque
Não te tenho na hora
Em que te quero e te preciso
Mas porque eu te vingo assim
Fazendo vingar as outras
Com o tempo a me perseguir
Me enredando feito doido
Numa salada de putas
De mentiras sinceras
E de verdades malsãs

Minha mão é um harém,
Para que a ausência tua
Me traga a parca certeza
Que só te terei inteira
Nos pedaços das tantas, tantas
Nos cheiros salgados de mar
De um passado a construir
Num futuro a desbotar

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ontem

Hoje eu acordei Bonsai.
Grande por dentro, ridículo por fora, forte sem que se veja ou se entenda. Tão lindinho e tão torto e esquisito; parecendo apenas um anão de mim mesmo!

Hoje eu não devia ter acordado.
Hoje eu não devia ter.
Hoje eu não devia.
Hoje eu não.
Hoje eu.
Hoje.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Meta: A Física



A minha loucura,
Abrando-a
Sufoco-a
Aos goles de café com fumaça.
Aperto-a
Comprimo-a
Sonhando com cerveja e cachaça.

Mas...

Quando a noite se acende,
Ela aflora.
Ela: a fauna
Dos horrendos bichos
Das minhas noites sem sono.
Que são poucas
E são muitas
De desejo
De vontades
De explodir
Sem saber
Sem querer.

Mas...

Na minha loucura eu queria mesmo
Era ser seu aborto
Seu sangue
Sua roupa usada
Seu pedaço de carne
Perdido
Para sempre.
Para sempre
Teu.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Em Si, Clone!

Variz da Meiga

Idiotas,
Idiotas e cegos!
E burros e otários!
Como é que não enxergam?
Eu, aqui não sou eu!
Eu sai de cena,
Morri, escafedi, desapareci!
Quem vos revela esta farsa sou eu:
Clone de mim mesmo,
Nem minha mulher percebeu!
Nada!
Minhas amantes, parentes,
Amigos e inimigos.
Nadinha, ninguém sequer duvidou
Por um instante, por um átimo,
Que eu não fosse eu!
Há! E no entanto eu sou apenas
Um pedaço de carne,
Um corpo igual ao meu,
Usando e abusando da minha vida.
De tudo o que eu tive,
Sem que possam provar que eu,
Não sou nem nunca fui eu!
Pois bem,
Sou a maior maravilha da criação do homem.
Sou o fim das pesquisas,
Sou o ápice da raça humana,
Aquele que é,
Sem nunca ter sido!
E digo mais,
Agora que estou me expondo,
Contando toda a verdade,
Não poderia me furtar a dizer
O maior segredo do lado de cá!
Sim, do outro lado da vida.
Calma, imbecis, calma,
Já vou dizer o que todos querem saber
E passam a vida toda tentando adivinhar!
Sim, Deus existe,
E ela é negra!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fausto, eu? Auto-retrato sem rimas

JPVeiga



Sua alma, por favor.
 
Alma, sim, ouvistes bem, a alma! - sussurrava o Diabo em meu ouvido.

Eu faço um negócio agora...
Dar-te-ei o que quiseres, qualquer coisa!
Dinheiro?
Pagas o que deves e ainda terás muito, muito mais!
Vida eterna?
Viverás para sempre!
Vamos lá,
Apenas quando achares que está tudo bem,
Darás-me tua alma!
Não dói,
Veja:
Teu dinheiro já é dos unibancos,
Teus pulmões das souza cruzes,
Agora, dando-te esta especial oportunidade,
Livra-te das dívidas, ficas endinheirado e...
Ganhas a vida eterna ao meu lado!

Hum!
Muitos anos, muitos filhos, muitos casamentos,
Faltando o apêndice, as amígdalas e parte da orelha esquerda!
Cheio de drogas, álcool, política, artes, literatura!
Não sabes que estas coisas destroem a saúde!
Não, o corpo definitivamente não interessa!
Quero mesmo a alma!

Deixe-me ver a danada...
Fluminense, Macumbeiro, Comunista?
Essa sua alma mais parece uma colcha de retalhos!
Vai me dar um trabalhão!
Ainda por cima com esse cheiro desagradável de Jasmim do Cabo!
Bofé!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ivan's Blue

Em um velho HD, enfiado num armário - acho que como um livro ou diário que não se joga fora - achei uma série de poesias e contos e textos.
Um deles, escrito há muito, muito tempo - logo depois que assisti meu primo Ivan no espaço em cima do antigo bar Nicteroi (não me lembro o nome) e que foi a primeira vez que o vi como cantor e guitarrista.

 
Ivan's Blues
JPVeiga

Quando ele nasceu,
Que eu me lembre,
E pouco me lembro mesmo,
Nada significou pra mim.

A política sufocava minha razão
O álcool embotava minha mente
E as drogas apertavam meu coração

Quando ele foi crescendo,
Que eu me lembre,
E pouco me lembro mesmo,
Nada significou pra mim.

Os filhos embotavam meu coração,
O dinheiro sufocava minha mente
E o sexo apertava minha razão.

Quando me dei conta dele
Ele já era da minha altura
Era um homem, inteiro e total
Enquanto eu era partido em pedaços

Fui assistir seu show,
Esperando ouvir um nada
Esperando apenas,
Deixar o tempo passar

Qual!

Seus dedos sufocavam a guitarra
Sua voz apertava as gargantas
E sua presença embotava os demais

E assim, ele nasceu para mim
Nasceu e cresceu ao mesmo tempo
Tudo na velocidade de seus dedos
Tudo na rouquidão de sua voz

Hoje, que eu me lembre,
E pouco me lembro mesmo,
Ele significou pra mim
Tudo o que sempre foi
Sem ter sido dito
Tudo o que é
Sem se ver ou saber

Tudo
Tudo
Ou nada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Completeza

                                      JPVeiga


Não busco acertar
Não busco errar
Apenas tento viver
No meio da violência
Na esquina da fadiga
Da rua da miséria

Ah, como eu queria ser
Da matéria do meu nome
Pedro, da Pedra
Pedra de Pedro
Para não julgar
Para não ser julgado
E sobreviver
Completamente
Terceirizado

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

...e minha Tia inventou o Desfile de Carnaval!

Escrito há um tempo atrás, hoje me peguei lembrando dela, aí, resolvi colocar aqui...




Estou chegando do cemitério onde fui deixar para descansar minha Tia querida e, uma vez que ela não está mais aqui, resolvi abrir a caixinha de mistério que ela me fez guardar, revelando o maior de todos, trancado a sete chaves, um pedaço de serpentina rosa e uns confetinhos desbotados!

Do alto dos seus 100 anos, minha Tia sempre teve uma vida regrada e absolutamente séria dentro dos mais tradicionais padrões mineiros de conduta.
Solteiríssima, passou grande parte da vida costurando paramentos para os padres da paróquia de Botafogo, aqui no Rio; pintando porcelana e distribuindo alegria, amizade e benesses entre seus inúmeros sobrinhos, afilhados e parentes, distantes ou não.

Por conta da pintura, desde cedo ela viu em mim alguém com quem trocar idéias, falar sobre pincéis e tintas, técnicas e proporções. Foi minha mestra em quase tudo referente às artes; foi minha admiradora e fornecedora, de materiais e sugestões. Com a mão firme, me ensinando, mostrando e analisando, preparou meu caminho para as artes, a despeito das críticas de meu pai (vai ser engenheiro, meu filho!), me incutiu o respeito aos grandes mestres, abriu as portas para a liberdade de criação sem o medo do “que os outros vão dizer”, e, principalmente me deu a coragem de encarar a tela/papel em branco.

Pois foi que então, já sem ela, posso enfim contar a todos o tal segredo, que uma vez ela me contou com sua voz miúda, como quem confia seus pecados a um padre no confessionário:

O ano era 1907, início do século passado, meu avô, pai dela, era o secretário do sogro - meu bisavô - então Presidente da República, o quinto presidente de um país recém saído de um império turbulento, numa sociedade machista, cheia de não me toques quanto à mudanças. As mulheres, os pobres e os analfabetos não votavam; tanto que meu bisavô foi eleito com pouco mais de 200 mil votos! Minha Tia, então com quase um ano de vida, ia no carro presidencial com sua mãe, irmãos e tias. Estavam todos indo para um prédio na Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), de onde iam apreciar os blocos e a brincadeira de um carnaval ainda ingênuo.
O motorista corria a fabulosos 25 Km/h quando minha Tia pôs-se a chorar ensurdecendo a todos. O carro parou e minha avó decidiu que era melhor voltar para levar a criança para casa. Meia volta e minha Tia começou a sorrir, gargalhar. O carro deu mais um giro e voltou ao seu percurso inicial. O choro começou de novo, mais uma volta, mais sorrisos, outra virada e as pessoas dentro do carro começaram a cantar, transformando aquilo numa brincadeira.
Lá pela 5ª vez que se virava, um carro que passava começou a fazer a mesma coisa e mais um e outro mais, até que a avenida ficou tomada de carros sem capota indo para cima e para baixo, uns atrás dos outros, com as pessoas cantando, dançando, alegres e felizes, atirando serpentinas e confetes, limões-de-cheiro e farinha.
Estava criado o corso! que virou desfile e virou o desfile de Escolas de Samba de hoje em dia.
Tudo por culpa dela!
Isso, contado pela minha doce Tia, com um sorriso maroto e a bochecha ruborizada, era seu maior segredo!
Evoé Momo!

Eramos Um

Minha foto
Quem somos nós? Somos 3 em 1!!! JPVeiga - Variz da Meiga e Mariz Conzê - Vou contar sobre um deles: JPVeiga Peixes, Serpente no Horoscopo Chinês, filho de Oxum, aprendeu a ler já velho, com 7 anos, o pai queria tanto que ele fosse engenheiro, quase foi arquiteto, é Diretor de Arte, Ilustrador e Pintor, escreve para crianças desde sempre. Tem 3 filhos e uma neta, é casado e não pretende mudar essa condição. Mora como os sapos - na Lagoa.