Eramos um

Poesia, Escritos, Contos e Mentiras de um cara que pensa que é três!

domingo, 27 de março de 2011

O Contrato



O Contrato
Mariz Conzê




Os dedos nodosos rodavam a caneca de ágata – esmalte velho e gasto no fundo – uma cordinha sebenta amarrada na asa explicava que o dono era gente de viagem – de pouso aqui ora ali. 
O café soltava uma fumaça que se espalhava com o bafo do homem. A caneca ia até a boca e os olhos apertados viam através da janela – lá longe uma fumacinha mostrava que por ali morava gente, gente de muito porém, de muita história, gente arredia e com a desconfiança como vizinha. Era caso de se esperar. O homem disse que vinha, virá.
Lembrou da mulher. Lembrou de como explicou que esse era o último trabalho – lembrou de quantas vezes lhe dissera isso – sorriu. 
Danada, verve preocupada – carece não, sei me defendê.
Sorriu nervoso.
A casa abandonada só tinha o cheiro da fogueirinha que fizera pra fazer café. O teto de telhas vãs tinha até trepadeira nascendo. A tarde acabava, a fumacinha ao longe chegava perto – devia ser ele.
Ajeitou o repetição atrás de um toco de pau – colocou uma garrucha no alto de uma viga meio podre – deixou ao alcance da mão uma faca de corte e esperou – nunca se sabe – tem-se que estar preparado – pensou, ajeitando uma peixeira nas costas.
Então se encostou no canto da janela e esperou. A lembrança da mulher veio de novo, ela no quintal, os lençóis brancos se sacudindo, o sol forte, o sorriso maroto. Estava sonhando quando alguma coisa fez ele prestar atenção. A fumaça virara um cavalo – em cima dele um homem; roupas boas cheias de poeira, segurando mal nas rédeas, ele parecia ter guerreado com o cavalo durante todo o percurso. Era o danado, o pau mandado do cliente. Já estava acostumado, nunca aparecia o ômi da mandância. Quem paga e quem diz é sempre um cabra safado – toco de amarrar jerico. Tinha raiva desses tipos – pequeninos com jeito de quem tem sem ter, de quem é sem ser – mas, vamulá que o trabalho já foi meio pago.
Parou na soleira da porta e tirou o chapéu, o homem chegou e sem jeito encostou o cavalo perto duma árvore e se apeou. Desceu e foi falando e andando e maldizendo o sol e os espinhos e o cavalo e a estrada, entrou na casa e olhou ao redor – não tinha móveis, não tinha cadeira, olhou de novo como que não acreditando e rodou o corpo até parar nos olhos do matador. 
Entonces vossemecê é o ômi?
É, sô.
Eu vim a mando de uma pessoa que lhe mandou dinheiro e lhe fez uma oferta de trabalho.
Sei.
E o senhor recebendo o dinheiro como que selou o acordo e agora eu...
Moço, diga logo quem é e onde mora. Diga e vá-sembora que eu não perciso de mais nada nhô não! Chega de rapapés, diga logo – dê uma fota, uma indicação e mais nada – nóis nunca se viu – entende?


Certo, descurpa, é o nervoso que está assim me empurrano. Tome lá! Essa fota é antiga, ele já é um homem velho – tem uma mulher nova, filhos pequenos e tal e coisa, mas isso não interessa, ele tem que, digamos assim – desaparecer por mode as terras do meu patrão ficarem assim vazias que o ômi do banco assim quis e mais não digo pruquê não posso. 


Certo, agora é comigo – falou o cabra pegando a foto e como que se abanando – vá-sembora. Pregunte lá pro seu patrão se ele quer alguma prova do sumiço do cabra?
Carece não, a notícia por essas bandas corre muito rápido – vamos saber rapidim – assim que se souber, mandamos o restante.


Negativo, falou o homem se colocando na frente do outro que se movimentava pra sair dali. Negativo – eu quero encontrar com vossemecê logo dispois do fato – diga onde, que eu vou até lá – e recebo o que é meu e me ganho no mundo – é assim que a coisa funciona, que isso não é brinco de criança nem xixi de moça – é pau de dar em doido – se não quiser fale logo que eu dô logo por encerrado e pronto cabô e fim.


E o homem suando falou, e se explicou e concordou e assentiu e saiu e montou e foi embora deixando para trás a mesma fumacinha que trouxe.


Dentro da casa a 44 saiu de trás do toco, a garrucha foi pro cinto, a faca começou a picar um pedaço de fumo e a fotografia ficou no parapeito da janela enquanto o cigarro era aceso. 
E lá ficou quando ele saiu – a foto gritava, a casa reclamava, a arma esquentava e o sol ardia; enquanto o homem entrava pelo meio do mato feito bicho, correndo pra chegar no sítio de seu velho pai e matar e correr de volta pra encontrar o maldito leva e traz, receber o dinheiro, dar umas bordoadas nele, descobrir quem é o patrão, e matar esse e ir até o mandante, matar aquele cabra também e voltar correndo pra casa e pegar a mulher e sair fugido pros cafundós; que cabra matador que cumpre seus contratos ali na risca, acaba sempre tendo problemas. 

sexta-feira, 11 de março de 2011

Carta de Léo Cunha a Emir Sader

O Emir Sader, que eu sempre considerei um cara lúcido, me soltou essa bobagem:

"a elite tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum."

Que papo é esse, Emir? Em que emirado você está vivendo?
Quem defende os direitos autorais não é nenhuma elite, são milhares de escritores e ilustradores (no caso do livros, e milhares de compositores, no caso da música, etc).

Nosso TRABALHO é criar prosa e poesia e ilustrações e merecemos remuneração por este TRABALHO. Os direitos autorais são o nosso pagamento, o nosso salário. Não somos representantes de nenhuma elite nem nenhum grande conglomerado. Aliás, nosso grande inimigo, neste luta em torno dos direitos autorais, é uma pequena empresa chamada Google.

Peço licença para me usar como exemplo. Eu escrevo livros infanto-juvenis há 20 anos. Me preparei para isso há mais tempo que isso, lendo muuuuuuuito durante toda a minha vida, fazendo traduções, fazendo uma especialização em Literatura Infantil, fazendo um mestrado em ciência da informação, e agora em meio a um doutorado.

Como alguém pode ignorar que isso é o meu TRABALHO? Que eu mereço ser pago pelo meu estudo, meu esforço, minha criação?

Se você está certo em um ponto, é que os direitos autorais são, para a maioria de nós, um "dinheirinho". E muito suado. Cada livro que meu que é vendido no mercado (a preços que variam de 15 a 30 reais, geralmente), me rendem de direitos autorais algo entre 1 e 3 reais. Não mais que isso. Quando há uma compra governamental, os preços caem muito, então os autores recebem algo como 30 ou 40 centavos por livro. Centavos!

Se o livro não vende nada eu não ganho nada. Se vende bem (o que no Brasil é incomum) eu consigo receber uma remuneração razoável. Como você vê, meu trabalho é de alto risco, ao contrário do trabalho de quem disponibiliza o PDF dos meus livros num site cheio de banners.

Quer dizer então que estes sites cheios de banners (que são pagos, obviamente) estão do lado certo, moderno, avançado, o lado da inteligência coletiva e da democracia cultural?

E eu, que exijo apenas a remuneração pelo meu trabalho, estou do lado errado, do lado do atraso? Estou do lado dos cânones dogmáticos? Só penso "no meu dinheirinho dos direitos autorais"?

Ou será que o atraso é representado por aqueles que querem derrubar este grande avanço que foi a profissionalização do artista. Assim corremos o risco da volta dos velhos mecenas (aristocráticos, religiosos, ideológicos, etc) que permitem, abonam e subvencionam apenas o que lhes interessa pessoalmente.

Repare que eu não sou contra qualquer autor disponibilizar o que quiser na internet. Eu mesmo publico, frequentemente, poemas inéditos na minha página do Twitter. O que eu não posso admitir (e esta posição é unânime na AEI-LIJ - Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) é que alguém - especialmente alguém com a inteligência e preparo de um Emir Sader – venha nos negar a remuneração por nosso TRABALHO.

Atenciosamente,
Leo Cunha

domingo, 9 de janeiro de 2011

Verdade

Poucas coisas sei
Muito poucas
E das poucas coisas que sei
Poucas são verdades
E dentre essas poucas coisas
Em uma eu acredito

Assim, vou dividir com vocês
A única certeza
Que tenho:

Vivemos num aquário

Sim, somos todos
Peixinhos de aquário
Nada do que fazemos
É verdadeiramente
Verdade

O brilho do diamante

O gás da água mineral
O chapéu pontudo do cardeal

O carro que corre na rua
O homem que pisou na lua
O corte na carne crua

O pastel de carne da feira
O anel no dedo da freira
A estrela no meio da bandeira
A cruz que muitos fazem de carreira

Tudo isso e mais a luz que poucos enxergam

Nada é de fato um fato
Nada é de verdade
Nada é nada
Nada

Tudo é uma ilusão
Como decoração
De fundo do mar
Em um aquário barato

Nadamos em volta
De algas e bolhas
Comemos manás
Plantados e matados
E a nós enviados
Como se tivéssemos feito
Trabalhamos em empregos
Que não levam a nada
Escrevemos livros que se apagam
Fazemos filhos que nos são entregues
Por algo ou alguém
Que os fabrica e nos dá
Como quem entrega
Um peixinho num saco plástico

Somos, sem ser
Existimos sem saber
Sabemos sem crer
Acreditamos sem poder

Então,
Um dia,
O dono do aquário
Vai cansar de nós
Vai achar que o vidro está sujo
Ou vai ter que fazer uma longa viagem
Ou simplesmente vai esquecer de nós
E aí
Aí...

Aí, vamos nos debater no tapete sujo
Como peixes fora da água
Jogados, derrubados no chão
Pulando e abrindo a boca
A procura de um ar que não virá
Esperando que o dono
Enfim,
Tenha piedade de nós
Amém

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Amém



Mulher
Esta é a tua rima
E dentro,
Ela é a razão
E a falta dela

És uma atômica explosão
E o enorme silêncio
Posterior
 
És a febre
E o tremer
És o calor
E a falta dele

Mulher,
Em tua rima
És ter
E és o ser,
Por isso,

Ave rainha
Cheia de penas
Que eu esteja convosco
Até o fim de meus dias
Bendita sois vós
Entre as avós
E bendito é o fruto
Que é o vosso ventre
De luz

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

MInha Palma Sua Alma

Minha mão é um harém.
E nele,
És a escolhida,
A favorita do Sultão
A minha predileta

Mas só és assim
Porque eu te sonho
E neles,
Não és apenas a professorinha.
Nos meus sonhos de espanto
E de realidade
Sonhos suados de vida
E de sorte
És Beatriz e Carmen
Numa mistura louca
De literatura e música


Nos meus sonhos violetas
De persianas entreabertas
De azulejos pintados
De flores e de frutos
Sonhos inteiros de nada,
És a dona do mar
És a mais bonita dentre todas
As sereias feitas de terra

Minha mão é um harém,
Não apenas porque
Não te tenho na hora
Em que te quero e te preciso
Mas porque eu te vingo assim
Fazendo vingar as outras
Com o tempo a me perseguir
Me enredando feito doido
Numa salada de putas
De mentiras sinceras
E de verdades malsãs

Minha mão é um harém,
Para que a ausência tua
Me traga a parca certeza
Que só te terei inteira
Nos pedaços das tantas, tantas
Nos cheiros salgados de mar
De um passado a construir
Num futuro a desbotar

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ontem

Hoje eu acordei Bonsai.
Grande por dentro, ridículo por fora, forte sem que se veja ou se entenda. Tão lindinho e tão torto e esquisito; parecendo apenas um anão de mim mesmo!

Hoje eu não devia ter acordado.
Hoje eu não devia ter.
Hoje eu não devia.
Hoje eu não.
Hoje eu.
Hoje.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Meta: A Física



A minha loucura,
Abrando-a
Sufoco-a
Aos goles de café com fumaça.
Aperto-a
Comprimo-a
Sonhando com cerveja e cachaça.

Mas...

Quando a noite se acende,
Ela aflora.
Ela: a fauna
Dos horrendos bichos
Das minhas noites sem sono.
Que são poucas
E são muitas
De desejo
De vontades
De explodir
Sem saber
Sem querer.

Mas...

Na minha loucura eu queria mesmo
Era ser seu aborto
Seu sangue
Sua roupa usada
Seu pedaço de carne
Perdido
Para sempre.
Para sempre
Teu.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Em Si, Clone!

Variz da Meiga

Idiotas,
Idiotas e cegos!
E burros e otários!
Como é que não enxergam?
Eu, aqui não sou eu!
Eu sai de cena,
Morri, escafedi, desapareci!
Quem vos revela esta farsa sou eu:
Clone de mim mesmo,
Nem minha mulher percebeu!
Nada!
Minhas amantes, parentes,
Amigos e inimigos.
Nadinha, ninguém sequer duvidou
Por um instante, por um átimo,
Que eu não fosse eu!
Há! E no entanto eu sou apenas
Um pedaço de carne,
Um corpo igual ao meu,
Usando e abusando da minha vida.
De tudo o que eu tive,
Sem que possam provar que eu,
Não sou nem nunca fui eu!
Pois bem,
Sou a maior maravilha da criação do homem.
Sou o fim das pesquisas,
Sou o ápice da raça humana,
Aquele que é,
Sem nunca ter sido!
E digo mais,
Agora que estou me expondo,
Contando toda a verdade,
Não poderia me furtar a dizer
O maior segredo do lado de cá!
Sim, do outro lado da vida.
Calma, imbecis, calma,
Já vou dizer o que todos querem saber
E passam a vida toda tentando adivinhar!
Sim, Deus existe,
E ela é negra!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fausto, eu? Auto-retrato sem rimas

JPVeiga



Sua alma, por favor.
 
Alma, sim, ouvistes bem, a alma! - sussurrava o Diabo em meu ouvido.

Eu faço um negócio agora...
Dar-te-ei o que quiseres, qualquer coisa!
Dinheiro?
Pagas o que deves e ainda terás muito, muito mais!
Vida eterna?
Viverás para sempre!
Vamos lá,
Apenas quando achares que está tudo bem,
Darás-me tua alma!
Não dói,
Veja:
Teu dinheiro já é dos unibancos,
Teus pulmões das souza cruzes,
Agora, dando-te esta especial oportunidade,
Livra-te das dívidas, ficas endinheirado e...
Ganhas a vida eterna ao meu lado!

Hum!
Muitos anos, muitos filhos, muitos casamentos,
Faltando o apêndice, as amígdalas e parte da orelha esquerda!
Cheio de drogas, álcool, política, artes, literatura!
Não sabes que estas coisas destroem a saúde!
Não, o corpo definitivamente não interessa!
Quero mesmo a alma!

Deixe-me ver a danada...
Fluminense, Macumbeiro, Comunista?
Essa sua alma mais parece uma colcha de retalhos!
Vai me dar um trabalhão!
Ainda por cima com esse cheiro desagradável de Jasmim do Cabo!
Bofé!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ivan's Blue

Em um velho HD, enfiado num armário - acho que como um livro ou diário que não se joga fora - achei uma série de poesias e contos e textos.
Um deles, escrito há muito, muito tempo - logo depois que assisti meu primo Ivan no espaço em cima do antigo bar Nicteroi (não me lembro o nome) e que foi a primeira vez que o vi como cantor e guitarrista.

 
Ivan's Blues
JPVeiga

Quando ele nasceu,
Que eu me lembre,
E pouco me lembro mesmo,
Nada significou pra mim.

A política sufocava minha razão
O álcool embotava minha mente
E as drogas apertavam meu coração

Quando ele foi crescendo,
Que eu me lembre,
E pouco me lembro mesmo,
Nada significou pra mim.

Os filhos embotavam meu coração,
O dinheiro sufocava minha mente
E o sexo apertava minha razão.

Quando me dei conta dele
Ele já era da minha altura
Era um homem, inteiro e total
Enquanto eu era partido em pedaços

Fui assistir seu show,
Esperando ouvir um nada
Esperando apenas,
Deixar o tempo passar

Qual!

Seus dedos sufocavam a guitarra
Sua voz apertava as gargantas
E sua presença embotava os demais

E assim, ele nasceu para mim
Nasceu e cresceu ao mesmo tempo
Tudo na velocidade de seus dedos
Tudo na rouquidão de sua voz

Hoje, que eu me lembre,
E pouco me lembro mesmo,
Ele significou pra mim
Tudo o que sempre foi
Sem ter sido dito
Tudo o que é
Sem se ver ou saber

Tudo
Tudo
Ou nada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Completeza

                                      JPVeiga


Não busco acertar
Não busco errar
Apenas tento viver
No meio da violência
Na esquina da fadiga
Da rua da miséria

Ah, como eu queria ser
Da matéria do meu nome
Pedro, da Pedra
Pedra de Pedro
Para não julgar
Para não ser julgado
E sobreviver
Completamente
Terceirizado

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

...e minha Tia inventou o Desfile de Carnaval!

Escrito há um tempo atrás, hoje me peguei lembrando dela, aí, resolvi colocar aqui...




Estou chegando do cemitério onde fui deixar para descansar minha Tia querida e, uma vez que ela não está mais aqui, resolvi abrir a caixinha de mistério que ela me fez guardar, revelando o maior de todos, trancado a sete chaves, um pedaço de serpentina rosa e uns confetinhos desbotados!

Do alto dos seus 100 anos, minha Tia sempre teve uma vida regrada e absolutamente séria dentro dos mais tradicionais padrões mineiros de conduta.
Solteiríssima, passou grande parte da vida costurando paramentos para os padres da paróquia de Botafogo, aqui no Rio; pintando porcelana e distribuindo alegria, amizade e benesses entre seus inúmeros sobrinhos, afilhados e parentes, distantes ou não.

Por conta da pintura, desde cedo ela viu em mim alguém com quem trocar idéias, falar sobre pincéis e tintas, técnicas e proporções. Foi minha mestra em quase tudo referente às artes; foi minha admiradora e fornecedora, de materiais e sugestões. Com a mão firme, me ensinando, mostrando e analisando, preparou meu caminho para as artes, a despeito das críticas de meu pai (vai ser engenheiro, meu filho!), me incutiu o respeito aos grandes mestres, abriu as portas para a liberdade de criação sem o medo do “que os outros vão dizer”, e, principalmente me deu a coragem de encarar a tela/papel em branco.

Pois foi que então, já sem ela, posso enfim contar a todos o tal segredo, que uma vez ela me contou com sua voz miúda, como quem confia seus pecados a um padre no confessionário:

O ano era 1907, início do século passado, meu avô, pai dela, era o secretário do sogro - meu bisavô - então Presidente da República, o quinto presidente de um país recém saído de um império turbulento, numa sociedade machista, cheia de não me toques quanto à mudanças. As mulheres, os pobres e os analfabetos não votavam; tanto que meu bisavô foi eleito com pouco mais de 200 mil votos! Minha Tia, então com quase um ano de vida, ia no carro presidencial com sua mãe, irmãos e tias. Estavam todos indo para um prédio na Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), de onde iam apreciar os blocos e a brincadeira de um carnaval ainda ingênuo.
O motorista corria a fabulosos 25 Km/h quando minha Tia pôs-se a chorar ensurdecendo a todos. O carro parou e minha avó decidiu que era melhor voltar para levar a criança para casa. Meia volta e minha Tia começou a sorrir, gargalhar. O carro deu mais um giro e voltou ao seu percurso inicial. O choro começou de novo, mais uma volta, mais sorrisos, outra virada e as pessoas dentro do carro começaram a cantar, transformando aquilo numa brincadeira.
Lá pela 5ª vez que se virava, um carro que passava começou a fazer a mesma coisa e mais um e outro mais, até que a avenida ficou tomada de carros sem capota indo para cima e para baixo, uns atrás dos outros, com as pessoas cantando, dançando, alegres e felizes, atirando serpentinas e confetes, limões-de-cheiro e farinha.
Estava criado o corso! que virou desfile e virou o desfile de Escolas de Samba de hoje em dia.
Tudo por culpa dela!
Isso, contado pela minha doce Tia, com um sorriso maroto e a bochecha ruborizada, era seu maior segredo!
Evoé Momo!

sábado, 14 de novembro de 2009

Proposta de quase fim de ano

Variz da Meiga

Pronto,
Resolvi:
Vou vender meu corpo!
Meu anúncio será assim:
Vende-se corpo usado
De 4ª mão
Faltando um pedaço de orelha
E alguma vergonha.
Este corpo fala algumas línguas
E a usa quase bem de outras maneiras.
Infelizmente é tricolor,
Macumbeiro e ex-comunista.
Não é lá essas coisas na cama
Mas não deixará de dar uns beijinhos
E chamar a nova dona de querida.
Está disposto a servir de cobaia
Para experimentos psicológicos
E obedecerá cegamente até a exaustão.
Preço de ocasião.
Tratar diretamente com o dono.
Não aceito intermediários.
Não precisa enviar foto junto com a proposta.
Beleza não só não é fundamental
Como não é necessária.
Aceita-se como pagamento
Os % de energia poupados
A pedido do governo
Para que sejam usados
De maneira melhor e mais clara.
Vende-se corpo usado
Pouco abusado porém
Íntegro e bem safado.
Vende-se.
Por motivo de viagem.
Desocupa-se na hora.
As 10 primeiras que ligarem
Ganharão 15 minutos
De graça.
Pede-se não enviar flores.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Receita para amar-se a uma gordinha

JPVeiga


Para se amar uma gordinha, antes de mais nada
Faz-se necessário achá-la!
Não, não se acham gordinhas por aí!
Gordinhas são como um vinho muito raro,
Fruto de uma colheita precisa,
No tempo certo,
Da uva perfeita,
Da maturação exata.

Procure, converse com quem sabe,
Peça ajuda a quem tem!
E com toda a calma, achando uma,
Com o coração na mão,
Declare-se apaixonadamente!

Uma vez resolvido este problema,
Trate de aprender algumas coisas:
A diferença entre a sacarose e a sacarina,
Entre um almoço e um lanchinho,
Mas, principalmente,
Aprenda a diferenciar,
O “amor vamos comer uma coisinha!”
Do “querido, vamos fazer uma boquinha!”

Procure não misturar,

O ato com o prato,
O teso com o peso,
O come com a fome,

E trate de viver feliz e em paz!

domingo, 20 de setembro de 2009

O Bode Dialético

Variz da Meiga

Onde anda este homem
Que parece um animal
E com as patas fendidas
A barba mal feita
E os chifres recurvos
Me dá tanto prazer?

Onde está esse animal?
Que se parece com homem
E cheio de meninices
Me chama de mamãe.
No meu colo, me mama,
Me mama, me mama
Até a exaustão!
Me dando tanto prazer?

Estou aqui ao seu lado!
Você não me vê?
Porque me buscas?
Já não te dei tanto prazer?
Não bebi teu leite de cabra selvagem?
Não te esquentei as noites chochas?
Não recheei de roxo tua vida branca?
O que queres mais?

Amor!
Preciso também de amor!
Não me basta o prazer
Esquinas sem fim não me completam,
A dobrar e a dobrar e a dobrar.
Quero da fruta também o caroço!
Vem, vem ser um inteiro comigo.

Não posso,
Sou apenas aquele que dá
Aquele que toma
Aquele que é
Sem fazer e sem ser!
Nasci para sugar,
Vivo para viver,
O meu pasto é o mundo,
Morro insulso e seco
Se me completares.

Então me dê o seu dia!
O seu levantar,
O seu andar e o seu deitar.
Me dê sua companhia,
Me dê o completamento
De uma vida siamesa.
Onde um inspira
O que o outro respira.
Me dê a verdade,
Me dê você!

O alcrevite já cheira!
O Sapucaio, meu pai,
Se avizinha!
A hora chegou para mim.
Não, não posso te dar
Aquilo que nunca tive!
Só posso te iludir
Com o que aprendi,
Anjo caprino que sou.
Mas, se assim mesmo me quiseres,
Como um placebo amargo,
Me encontres na noite do dia
No dia da noite clara.
E seremos muito felizes,
Assim como,
Um lindo jasmim sem perfume.



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Os Sábados do Seu Domingos

JPVeiga

Apelido safado, Seu Domingos – só aparecia na praia na manhãzinha do domingo, mala do carro cheia de cerveja, rede e petecas.
Fundara o Arpeclú – Arpoador Peteca Clube – clube sem regras, sem sócios e sem vergonha. Jogava quem queria!
Bom de papo, bom de copo e cheio de alegria, de Seu Domingos não se sabia muita coisa. Onde, quando, em quê e como trabalhava, era uma incógnita – sabiam apenas que era de boa família, engenheiro, e que durante o resto da semana sua vida era um mistério.
Chegava na praia, armava a rede e, brincando com todos ficava esperando a turma chegar.
Ipanema antiga, praia vazia, os carros passavam devagar e o pessoal enchia a cara enquanto os “atletas” jogavam a peteca, tentando fazê-la atravessar a rede, esperando apenas o jogo (pretexto esportivo) acabar para entrar na gelada. E a manhã e a tarde corriam num papo gostoso e cheio de graça.
Acabava a cerveja – e o jogo – iam todos para o “Pé Sujo” perto do final do Arpoador – e a coisa continuava – papo, frango frito e tome cerveja.

Seu Domingos de olho comprido para a caçula da turma, dizia piadas e se chegava – e se chegava e se chegava. Chegou!

A Lourinha gostou do papo e marcaram um cinema para a noite.
O resto da turma, cheio de dedos para com a mocinha, dividiu-se em conversas. Que o pai dela, que a mãe, que ela era a menor da turma, que todos eram responsáveis por ela e tal e coisa; e Seu Domingos afinal, por mais que fosse querido por todos, não era flor que se cheirasse – sabiam por ouvir dizer que ele tinha uma “garçoniére” em Copacabana, achavam que ele era isso e aquilo, que tinha uma moto Vulcan e andava com garotas na garupa. Diziam que ele ia muito ao Bola Preta e que quando mulheres passavam pela areia enquanto ele jogava, ele, estufando o peito mandava beijinhos! Ora! Ao mesmo tempo ele era muito querido e muito temido – e agora tava de olho no brotinho da turma!

A noite foi tranquila: cineminha no Leblon, bolinho de bacalhau no Zepellin e té loguinho sem beijinho.
Bem que ele tentou, mas o Brotinho, neca!

Domingo seguinte. Praia vazia, rede armada desde cedo, Seu Domingos esperava a turma - e falava que suas intenções eram sérias, que isso e que aquilo – falava que o Broto era o que ele, quarentão estava precisando e que ela estava caidinha.
O jogo começou, a cerveja foi aberta e o Brotinho chegou. Papo vai e papo vem, marcaram para a noite outra vez e, de novo cineminha, bolinho e apertinho de mãozinha! Que coisinha!
Na porta da casa dela, Seu Domingos puxou um papo furado. O pai dela abriu a janela e convidou – entre, venha conhecer o resto da família.
Pombas! – 3 irmãos e 2 irmãs – uma irmã, campeã de lançamento de dardos, namorava alguém da Turma dos Cafajestes, outra era noiva de um Capitão, um irmão jogava nos amadores do Fluminense, outro era também engenheiro e brigão e o último, grandão, gritou na entrada:

- Ah, é você que anda se chegando pra minha irmã?

Seu Domingos ficou pequenino. Distribuiu sorrisos e rapidinho saiu.

Domingo seguinte ele chamou o Broto num canto e perguntou se afinal estavam ou não namorando. Ela disse que achava que sim, mas aquela coisa de só se encontrarem aos domingos era muito estranha. As desculpas foram as mais variadas, que a mãe, que a avó, que o trabalho. E saíram outra vez – cineminha, bolinho e finalmente um beijinho! Vitória!, o beijo selava o compromisso – só faltava agora ela andar na moto!

Semana cheia para Seu Domingos, muito trabalho, muitas reuniões e muita lembrança do Broto. Ela não saia da cabeça. Será que ela era a mulher da vida dele? Será que ele deveria investir nisso – que pureza, quanta sensibilidade, inteligente, politizada, discutia o fato do pai ser Anarquista e ex-exilado com a desenvoltura de uma militante – Professora de História! – trabalhava! - era bom demais pra ser verdade! Tinha que ter alguma coisa errada nessa coisa! Tava tudo muito certinho demais. Mas, por outro lado ela não saia do seu pensamento, a tal ponto dele abrir mão de compromissos inadiáveis com uma morena do Grajaú e se deslocar até Ipanema, num sábado!
Todo catito, cheiroso e com cara de santo, Seu Domingos bateu na porta da casa da Lourinha as 6 horas da tarde.

- Ela está?
- Quem? Perguntou uma irmã.
- O Brotinho!
- Ah! Saiu com o namorado.
- O namorado? Êpa! Mas o namorado sou eu! Quê isso? Estamos
namorando já há quase um mês – que coisa é essa, deve haver um
engano.

Deixa eu ver..., parou para pensar a irmã – isso! hoje é Sábado... é, ela saiu com o namorado da semana, você, que só aparece aos Domingos, é o namorado do fim de semana!
Bofé!
Seu Domingos sentou na escada de entrada do prédio, pensou muito, esperou a Lourinha chegar, se acertou, ficou noivo, casou e juntos tiveram quatro filhos, um dos quais, eu, cheio de saudades dele, escrevi essa história.

Pombas!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mens sana, Corpore Insano

De autoria ainda a ser definida entre os heterônimos,
que estão brigando de forma infantil!


Quem é esse cara ridículo a me olhar no espelho?
Barbicha rala, óculos, cabelo grisalho.
Quem é esse velho que me olha quando eu olho?
Não pode ser eu, não pode ser,
Sou jovem, na plenitude do amor,
Do sexo, da lucidez, da vida!
Sou praticamente uma criança.
Ei, ele está sorrindo,
Idiota, de que achas graça?
Sabes por acaso algo de mim que eu não saiba?
Tens algum segredo não revelado?
Sabes porque não consigo sair daqui?
Sabes por onde anda o meu exterior?
Sim, o que vive na minha idade,
Esse! O jovem cheio de vida,
Que ama olhar o céu a noite,
Que adora respirar o cheiro da grama molhada,
Que se abraça às árvores e
Grita para a lua cheia.
Isso, tens notícia dele?
Sabes onde posso encontrá-lo?
Por favor!
Pelo menos para lhe dizer que esta prisão é dura,
Que viver dentro de uma casca, sem voz, sem ação,
Apenas sonhando, é triste.
E para se de todo não pudermos nos unir,
Para marcar um encontro.
Numa noite clara, no fim da vida,
Debaixo de um pé de jasmim


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lúcida Loucura

JPVeiga

Do apertado ventre
Da avezinha morta
Grita sozinho
O pequeno ovo

Já não existem mais
Outros tantos quantos
Já não vivem mais
Quantos outros tantos

Porque somos iguais!
Pensa a ainda não ave viva
Porquê? Somos iguais?
Sofre o ainda não vivo. Ave!

Ser, ter sido fecundado
No calor, no ardor do amor,
Não dá, nem é
Garantia de nascer

Ter, ser um quase vivo
Aqui, lá fora
Ou trancado numa casca,
Não é nem dá garantia de morrer

Porque é melhor
Sorrir, no escuro palco da morte
Do que chorar, no claro
Patíbulo da vida

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Admirável Mundo Novo

Variz da Meiga


Abaixo a liberdade!
Chega de sonhos!
Chega de sorrisos!
Precisamos acabar com essa alegria toda.
O que significa tanta euforia?
De que adianta tanta felicidade?

Cadeia com os Poetas,
Esses esdrúxulos sonhadores.
Para a masmorra os Escritores,
Para a fogueira os escritos.

Vamos perseguir esses Diógenes
Que tanto procuram querendo achar
O homem que não existe.
E nem nunca, nem jamais existirá.

Vamos deixar o sangue lavar
A inquietude desses desassossegados
Que sofrendo ou amando,
Devaneiam em poemas, aventuras e romances.

Vamos acabar de vez com as rimas
Reduzir a pó sonetos
Esquartejar tercetos
Estrangular hai-kais

Chega, basta!
Esta é a hora.
Deixemos de lado o coração!
Que é apenas um músculo imbecil.
Vamos dar os braços, nos armar,
Combater este mal que já nos cerca
Destruir de uma vez;
Definitivo,
Com essa risonha raça sonhosa.

E por fim.
Livres afinal,
Das amarras do amor,
Das canções, da ternura,
Das belezas, da amizade,
Das loucuras do querer.

Poderemos viver o que somos
Animais selvagens,
Bestas, sem rumos e sem donos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Idas e Voltas

Mulher semostradeira
Langróia,
Coisa cigorelha,
Assanhada, finória
Não te quero mais
Não te sou mais teu
Sua coscuvilheira.
Vou-me embora
Não volto mais
Tô indo

Quase fui,
Quase.

Ia te perder
Ficar sem você
Nunca mais você.

Vem cá,
Te perdôo
Não falo mais no assunto
Perdão total
Nem me lembro mais
Nem me recordo
De você olhando
E se mexendo
E requebrando
E dando mole
Pra outro
Pra outro
Pra outro.

Sua rabeta,
Delambida,
Vou-me embora sim
Vou mesmo
Vou
Vou

Vou nada

Eramos Um

Minha foto
Quem somos nós? Somos 3 em 1!!! JPVeiga - Variz da Meiga e Mariz Conzê - Vou contar sobre um deles: JPVeiga Peixes, Serpente no Horoscopo Chinês, filho de Oxum, aprendeu a ler já velho, com 7 anos, o pai queria tanto que ele fosse engenheiro, quase foi arquiteto, é Diretor de Arte, Ilustrador e Pintor, escreve para crianças desde sempre. Tem 3 filhos e uma neta, é casado e não pretende mudar essa condição. Mora como os sapos - na Lagoa.