Eramos um

Poesia, Escritos, Contos e Mentiras de um cara que pensa que é três!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Jus Esperniandi!

 

Porra!

Deus, Jesus, Emanuel, Alá, Adonái, Oxalá,

Sei !

Alguém me ouça!

Porra!

Será que ninguém me ouve?

O que houve?

Porra!

Será que hoje é feriado por ?

Ou então eu não mereço ser ouvido?

Ou será o sei ?

Ou?

Vocês querem fazer o favor?

Aqui!

Aqui em baixo!

Isso!

Esse aqui pulando sou eu!

Isso!

Mas vocês bem que podiam dar mais um...

O quê?

Porra!

Eu tô acreditando,

Mas preciso que...

Ei?

Vão me atender ou não?

Atendem hoje?

Porra nenhuma!

entendi,

Vou ficar aqui rezando e

Pedindo e

Implorando e

Gritando e

Porra!

Porra?

Vamulá, diz ,

Quando é que vou ter paz?

Porra!

O quê?

Quando eu parar de reclamar?,

E aceitar?

E viver com o que tenho?

E parar com esse Porra todo?

Ó, eu faço de tudo,

De tudo mesmo!

Mas do Porra eu não abro mão!

Porra!

sábado, 17 de janeiro de 2009

Morte e Vida Severino


Ele andava pela rua sem prestar muita atenção na vida quando ouviu:

Severino! Eu pensei que você estava morto rapaz!

Eu hein? Morto, eu?

Você! A Noquinha me disse até que tinha ido no seu enterro! E tem mais: o pessoal lá do bar fez até uma vaquinha pra dar um dinheirinho pra sua mulher - ô cara como é que pode isso?

Bem, você tá me vendo e eu também tô te vendo, daí tô vivo, né? Ou não? 

E o amigo seguiu andando e balançando a cabeça. Ver um morto não é lá dessas coisas agradáveis, ainda mais quando o morto diz que não está morto - que coisa!

E o Severino ficou com a pulga atrás da orelha.

Chegou no escritório e a coisa continuou:

Ó Severino, quem é morto sempre aparece! Gritou um engraçadinho com um sorriso amarelo. O chefe da seção levou para outra sala duas secretárias que teimavam em dizer que o pobre Severino era uma alma do outro mundo, e falavam alto, meio histéricas, deixando o clima tenso. Um boy até tentou acender uma vela. Que coisa, o coitado do Severino já não aguentava mais; pediu pro gerente pra ir embora mais cedo e teve que ouvir a gozação: ir mais cedo, você já foi!

Matutando durante a volta para casa, Severino começou a colocar algumas fichas em ordem dentro da cabeça:

Não tinha se visto no espelho pela manhã ao se barbear - achou que o danado tinha se quebrado e ninguém o avisara. O café estava sem gosto - mas sem gosto algum -parecia que estava bebendo ar. Não vira sua mulher em lugar algum da casa. E mais um monte de outros pequenos acontecimentos que ele não dera importância e que agora voltavam como um filme.

Morto, eu? Como pode ser - morto e falando, conversando, sentindo o calor do sol, pegando ônibus? Morto eu?

E puxou a cordinha quando chegou perto do seu ponto. E o motorista continuou e continuou e continuou enquanto Severino seguia puxando a cigarra fazendo o maior barulho. E ele gritava, você não está me ouvindo - pára essa joça, pára, eu quero descer! Pombas!

Finalmente o bicho parou e ele desceu blasfemando contra o calor, o motorista, o ônibus, a vida e a morte.

Entrou em casa. Ninguém. Nada, casa vazia. A sala estava escura e a luz teimava em não acender. Severino sorriu, vai ver tô mesmo morto e ainda não sei, falou alto pra ver se sua voz tinha eco. Tinha!

Entrando no seu quarto reparou que a cama estava arrumada, ué? Ele saíra e não se lembrava de ter arrumado a danada! Na mesinha de cabeceira um livro aberto ao lado de um pacote de lenços de papel indicava que alguém tinha chorado. Severino ficou sério, sentou na cama, olhou o livro e leu ao acaso:

“A ventania misteriosa passou pela árvore cor de rosa”

Que coisa besta, árvore cor de rosa, ventania, parece coisa de boiola.

E ao ouvir sua própria voz ecoando pelas paredes, reparou que partes de suas pernas começavam a ficar transparentes e um cheiro de terra molhada entrava de carona numa lufada de vento.

Foi quando sua mulher chorando, subitamente surgiu no quarto, jogando-se na cama; passando por dentro dele, fantasma teimoso que era. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Singular

Singular

Variz da Meiga

 

Ela entrou correndo fugindo da chuva.

Puxava pela mão um menino encharcado.

Não parecia que iria haver uma venda, mas...

 

Pois não!

Ar-condicionados - preciso de uns 3 ou 4!

Ah sim, ares-condicionados, claro.

Foi o que falei, quero bons preços e ótimas condições!

Todos iguais?

Claro!

Ah sim, então é bom preço e ótimas condições!

Foi o que eu disse!!! O sr. Vai me mostrar ou vai ficar aí repetindo tudo o que falo, hein? Falou e virando-se para a criança soltou o verbo:

E você não faça bagunça, fique quieto e não mexa nos guardas-chuvas!

Guarda-chuvas! Gritou o vendedor lá do outro lado da loja.

 

A mulher rodou a loja inteira, colocou defeito em tudo, falou mal das marcas, contou experiências ruins de suas amigas e reclamou dos preços, enquanto o vendedor sorria e demonstrava os produtos.

 

Pouquinha quantidade né? Desdenhou.

Como? Já lhe mostrei uma dúzia de marcas diferentes! Saiba a senhora que ares-condicionados é no Paraíso dos Móveis!

São!

É!

É!, É!, E esse slogan é usado há mais de 30 anos! Desculpe-me o anglicismo.

São! e não me interessa nem um pouco a sua religião, anglicismo, protestantismo, catolicismo. Quero os ar-condicionados e pronto!

Ares! Ares! E não vendo mais nada!

Quero falar com o dono! Gritou furiosa a mulher.

O dono sou eu! E não vendo, tenho dito! Não vendo e pronto!

Mal educado, estúpido, imbecil, podem ir o senhor e a sua loja pras putas que os pariram! A mulher falou e deu uma rodada. Puxou o filho e foi saindo.

 

Já na porta se voltou e ouviu o homem falar:

 

Muito interessante este plural, muito, volte aqui senhora, volte que eu vou lhe fazer um ótimo desconto!

 

domingo, 9 de novembro de 2008


A canção do Bobo

Variz da Meiga

 

Porque ficas a rir

E a rir e a rir,

Pobre bobo da corte?

 

Rio, meu senhor

Porquê é de riso

E de amor

Meu viver sem siso

 

Mas por que esta lágrima escorre no rosto

Enquanto pulas, saltimbanco triste?

 

Ela escorre

Para sair

Se não, ela morre,

Antes de cair

 

Não brinques comigo bobo.

Conte-me a razão

De ficares a chorar e de ficares a sorrir

 

Sorrio para a minha senhora

Porque vivo pensando que ela me adora

Choro por ela que tanto sorri

Porque na verdade, ela diz que eu morri

 

Ora Bobo, que bobagem sem nome

Ficar a chorar e a fazer momices

Isso é mais coisa doida de doido

 

Pois é, meu senhor

Sei que isso parece tão oco

Mas são coisas do amor

Pois sou bobo mas não sou louco

 

Sorrio, pois sorrir é meu fim

Sou bobo cheio de amor

Pulando feito Arlequim

Sou bobo cheio de dor

 

Eu entendo, amigo bobo

Entendo mas não compreendo

Alguém viver triste e alegre

 

Eu lhe explico, meu amigo

Eu por fora estou contente

Pois no sofrer achei abrigo

 

Mas por dentro sou tristeza

Por ter perdido o amor

Que tinha, junto com rara beleza

 

Foi então que decidi assim

Viver e sofrer nesse tormento

Como se a vida atrás de mim

Fosse apenas um momento

 

Se soubesse, eu, triste truão

Que minha amada está contente

Sem meu amor e minha mão

Sem que eu esteja em sua mente

 

Eu então muito pularia

A gritar feito um jogral

E minha lágrima secaria

Mesmo eu me sentindo mal

 

O que então fizestes

Para perder tão grande amor

bobo tão bobo

 

Pois é meu senhor, eu não sei

Eu sei apenas que não lhe dei

O que talvez ela quisesse

E que eu não lhe soubesse

 

É que no coração de uma mulher

Um farsista não mete a colher

E num mundo de carneiro e lobo

Não tem mesmo lugar para bobo.

 

 

 

sábado, 25 de outubro de 2008


De novo

JPVeiga


Quando eu nascer de novo quero ser uma Efemérida.

Para mudar a relatividade do meu tempo - viver apenas um dia e neste dia ser bebê, criança, adolescente, adulto, idoso e numa conclusão total, morrer.

Cumprir minha vida em 24 horas, ser o que fui com a consciência plena de tudo que eu fizer terei guardado na lembrança, viver na instantaneidade, ser um ser de tempo real e simultaneamente poder usufruir da vida e da morte. Um começo com a certeza de final, sabido e cronometrado.

Uma vida plena, cheia e completa, num ciclo pequeno para alguns e de quase uma eternidade para outros.

Viver como quem, ao saber que seu tempo rapidamente se escoa, trata cada segundo como uma pérola, como uma dádiva de Deus, como o que ele realmente é: um momento mágico!

Nascer, crescer, conhecer seu amor, procriar e gloriosamente, morrer junto.

 

Agora, se não der, e eu puder escolher outro, quero nascer Cavalo-Marinho!, para poder nascer macho, crescer fêmea carregando meus filhos na barriga e parir!

 

E se de todo eu não conseguir nenhum dos dois, quero voltar de novo eu mesmo - para poder fazer uma nova vida conhecida e poder errar onde eu quiser, acertando ao meu bel prazer, comandando uma vida já vivida, aproveitando cada momento como se, o desconhecido fosse o já amigo, sabido e principalmente amado fim.


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Sax Appeal


Sax Appeal
JPVeiga

O cara tocava um saxizinho chatinho à beça, mas a menina não tirava os olhos dele. Pombas!

Ela tinha vindo comigo, caramba, tava rolando a maior paquera, ela tinha topado sair de novo, outro dia, um cineminha talvez, sei , um motel!!!  Na praia o papo foi ótimo, ela disse que adorava uma boate, e com música então... eu podia jurar que a coisa iria esquentar, ia rolar a maior, vem esse cara, tocando essa musiquinha de merda, essa coisinha que fica se repetindo e a gatinha , toda derretida pelo cara. E olha que ele nem é essa maravilha toda, aliás, com aquele cabelinho cheio de gomalina eu acho até que ele, sei ! E baixinho, acho que nem tem um metro e meio!

 

-         Sabe, eu também toco instrumentos, na minha família somos praticamente músicos! Falei, gritando no ouvido dela.

-         É...

-         Claro, por exemplo, minha mãe tocava tuba na banda de Ipanema...

-         Tuba...

-         É, tuba, muito difícil de tocar, instrumento de responsabilidade, e ela tocava de ouvido.

-         Ouvido...

-         Presta atenção, pombas!

-         Tá, espera acabar essa música, é ótima...

-         ...

-         Vai, fala da sua mãe.

-         Pois é, ela toca tuba, e cuíca.

-         É mesmo?

-         É, cuíca ela aprendeu com um professor, tuba foi de ouvido. E cuíca é o seguinte... é chegar em casa e começar um som ela corre e pega a cuíca, rola a maior...

-         Péra , essa música também é das boas...

E a coisa seguiu adiante, o chatinho tocando e a menina babando. E eu ali do lado tentando chamar a atenção da danada. Pedi mais um cuba-libre, mastiguei uns amendoins e fiquei ostensivamente de costas pro cara.

O baterista começou uma virada cheia de floreios e de ensurdecer santo, e então, eu aproveitei para iniciar de novo o papo:

-         pois é, meu irmão Marcello toca violão, cavaquinho e sanfona, quando nos reunimos é a maior bagunça, todos tocando...

-         psiu!

-         Ei, chega disso um pouco...

-         legal, essa música eu até não gosto muito, vai, diz !

-         Pois é, meu irmão Jorge que não toca, mas é musical pacas! eu toco tumba, bongô, atabaques e o Antônio sopra uma gaitinha e até mesmo toca um sax tenor.

-         Sax?

-         É!, sax, por quê?

-         Eu queria muito conhecê-lo!

-         Por quê? Por quê ele toca sax?, por isso? Ele toca muito mal, na verdade enche o saco da gente, é desafinado e tal e coisa.

-         E o sax, é daqueles grandões brilhantes? Maior do que o desse cara?

-         E você tá querendo o quê com o tamanho do sax do meu irmão?, pombas! Tamanho do instrumento não é documento, sax tenor, barítono, soprano, baixo, é tudo uma merda, é tudo uma porcaria, sopra-se de um lado e sai uma bostinha de som do outro e sabe do que mais? Vou membora! Fique você com o sax e com o dono dele que eu não tenho mais saco procês!

-         ...

Levantei e fui saindo, pedindo licença aqui e ali, encostei no balcão, dei adeus ao sonho de motel, pedi a conta, paguei e de longe abrindo a porta me virei para ver o que estava acontecendo. estava ela babando e o cara tocando a tal de "I've got you under my skin" se sacudindo como uma perfeita idiota, parecia a Beth Carvalho cantando "Andança" - ridículo...

Bati a porta da boate, dei um b'noite pro leão de chácara e, saindo pelo meio do pessoal que ia entrando, percebi que começava a assobiar!

Era a danada da música que voltava na minha cabeça.

Eu pulei e comecei a gritar uns impropérios dando chutes no ar.

-         Foi doutor, foi que o camburão da polícia parou e o guarda pediu meus documentos.

-         E precisava, meu filho?, precisava mandar o guarda enfiar o sax no rabo?, ali, na frente de todos?


Eramos Um

Minha foto
Quem somos nós? Somos 3 em 1!!! JPVeiga - Variz da Meiga e Mariz Conzê - Vou contar sobre um deles: JPVeiga Peixes, Serpente no Horoscopo Chinês, filho de Oxum, aprendeu a ler já velho, com 7 anos, o pai queria tanto que ele fosse engenheiro, quase foi arquiteto, é Diretor de Arte, Ilustrador e Pintor, escreve para crianças desde sempre. Tem 3 filhos e uma neta, é casado e não pretende mudar essa condição. Mora como os sapos - na Lagoa.